O deputado Raul Pont ocupou o período do Grande Expediente na tarde
desta quarta-feira (23/5) para homenagear o centenário de Apolônio de
Carvalho, uma das figuras mais representativas da esquerda brasileira e
fundador do Partido dos Trabalhadores. “Estamos aqui para celebrar o
centenário de uma das figuras políticas mais emblemáticas do Brasil.
Apolônio de Carvalho – aduziu – foi um lutador. Dedicou 93 anos em que
viveu em nome da liberdade. É um dos poucos homens, em todo o mundo, que
pode ostentar o título de herói de três Nações”, frisou Pont.
Raul
Pont passou pelos principais fatos da vida militante de Apolônio. Sua
trajetória foi marcada pela luta das causas sociais, na consolidação de
um projeto democrático e socialista para o Brasil. Serviu o Exército
Brasileiro, foi voluntário nas Brigadas Internacionais da Guerra Civil
Espanhola, combatendo o fascismo entre 1937 e 1939, e, na França, foi
coronel da Resistência na luta contra o nazismo na 2ª Guerra Mundial.
Nos
anos 60, rompeu com o PC brasileiro e ajudou a fundar o Partido
Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). Com a redemocratização, foi
fundador e o primeiro filiado do PT. E lembrou a afirmação de Apolônio
ao jornal A Tribuna, em 2005, com referência à fundação do PT: “Nascemos
na condição de produto direto, e ardorosamente desejado, de
trabalhadores, de intelectuais. De figuras que desejavam uma organização
profundamente ampla e também profundamente democrática. Acho que isso
marca muito o PT na sua origem como o mais democrático dos partidos
políticos até então existentes no país”.
A
homenagem foi acompanhada pela viúva do militante, Renée de Carvalho,
“companheira de vida e de luta”, como salientou Pont; pelo filho
René-Louis e por Stela Grisotti, diretora do documentário que conta a
trajetória de Apolônio. Pont destacou que muito do pensamento de
Apolônio e fatos de sua vida poderão ser vistos amanhã (24/5), a partir
das 19 horas, no Teatro Dante Barone, da Assembleia, no documentário
“Vale A Pena Sonhar”. O evento terá entrada franca.
Abaixo, a íntegra do discurso de Pont:
GRANDE EXPEDIENTE – 100 ANOS APOLÔNIO DE CARVALHO - 23/5
Estamos
aqui hoje para celebrar o centenário de uma das figuras políticas mais
emblemáticas do Brasil. Apolônio de Carvalho foi um lutador: dedicou os
93 anos em que viveu em nome da liberdade. Apolônio de Carvalho é um dos
poucos homens em todo o mundo que pode ostentar o título de "herói de
três Nações". Lutou contra Francisco Franco na Guerra Civil Espanhola.
Depois, se juntou às Forças Francesas do Interior na resistência contra a
ocupação alemã, na 2ª Guerra. Por fim, sofreu nos duros períodos de
clandestinidade durante a ditadura militar no Brasil. Além disso, é dele
a ficha de filiação número um do Partido dos Trabalhadores.
Apolônio
de Carvalho nasceu em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, no dia 9 de
fevereiro de 1912. Neto de camponeses, era filho de soldado sergipano e
de mãe gaúcha. Conseguiu seguir a carreira militar, e teve na própria
família a iniciação para a vida solidária. Segundo Apolônio, o pai,
Cândido Pinto de Carvalho Júnior, republicano de militância ativa,
contava com orgulho ter sido autor de um manifesto de repúdio à ameaça
de bombardeio por parte da Inglaterra, a potência colonialista da época,
contra Valparaíso e Valdívia, cidades portuárias do Chile. Outro
exemplo veio do irmão mais velho, Deusdédit, que fugiu de casa, em 1914,
com um grupo de colegas do ginásio, rumo a Paris, onde pretendia
engajar-se na resistência à invasão da França pelas tropas alemãs, no
início da Primeira Guerra Mundial. Acabou detido pela família, com
auxílio do Itamarati, ainda no Uruguai. Mas seguiu como personagem
principal da adolescência de Apolônio, ao engajar-se no Movimento
Tenentista e participar ativamente das revoltas sociais que marcaram os
anos 1920.
Na década seguinte, esse caminho
começaria a ser trilhado pelo próprio Apolônio, que se tornou oficial do
Exército brasileiro em 1933. O convívio na caserna com a esquerda
militar o levou a engajar-se na ANL – Aliança Nacional Libertadora, que
combatia o Imperialismo e a ditadura Vargas. Em 1935, foi preso e
expulso do Exército. Na cadeia, entrou em contato com a teoria marxista,
nos cursos ministrados pelos militantes do PCB – Partido Comunista
Brasileiro.
Com a saída da prisão em junho de
1937, Apolônio ingressou no Partido Comunista Brasileiro. Segundo disse
Apolônio à Revista Teoria e Debate, em 1989, o ideário do PCB "era muito
parecido com o da ANL: contra os monopólios estrangeiros, pela reforma
agrária, pela autonomia sindical, pelas liberdades sindicais, pelas
amplas conquistas sociais". Foi no PCB que ele teve a oportunidade de
dar curso à sina solidária de sua família: partiu para a Espanha, onde,
juntamente com outros 20 brasileiros, combateu nas Brigadas
Internacionais ao lado das forças republicanas contra os fascistas
liderados pelo general Francisco Franco, numa das mais crueis guerras
civis da História.
Ao lado de operários e
camponeses espanhóis, militantes socialistas, anarquistas e comunistas
vindos de todos os cantos do mundo, Apolônio apreendeu o significado de
um internacionalismo focado na solidariedade e no compromisso com o ser
humano. Participou de dezenas de batalhas, testemunhou o heroísmo e a
energia criativa com que os trabalhadores espanhóis sustentavam um
combate desigual contra as forças fascistas, apoiadas militarmente pela
Alemanha e pela Itália, diante do olhar passivo das potências
democráticas europeias.
Em fevereiro de 1939,
Apolônio deixou a Espanha juntamente com as Brigadas Internacionais e
partiu para a França. Acompanhou o rompimento da frente republicana,
dilacerada pelo sectarismo de suas lideranças políticas, sob a
influência da União Soviética e do stalinismo. Permaneceu em campos de
refugiados até maio de 1940, quando conseguiu fugir do campo de Gurs
para Marselha. É nesta cidade portuária, em 1942, que ele ingressa na
Resistência Francesa, da qual se torna comandante da guerrilha dos
partisans para a região sul, com sede em Lyon.
Este
é o ano, também, em que ele conhece Renée, uma jovem militante
comunista da Resistência, que se tornaria sua companheira para a luta e
para a vida.. Em janeiro de 1944, Apolônio e Renée se instalam em Nîmes,
onde, em fevereiro, se organiza o ataque à prisão daquela cidade,
libertando 23 militantes da Resistência. Em maio, mudam-se para
Toulouse. Em agosto, Apolônio comanda a liberação de Carmaux, Albi e
Toulouse. Em novembro, nasce o primeiro filho do casal, René-Louis. Por
sua coragem, Apolônio é considerado um herói na França, onde foi
condecorado com a Legião de Honra.
O fim da
guerra encontra a família em Paris, de onde embarca no ano seguinte para
o Rio de Janeiro. Ainda na França, o militante retoma o contato com o
PCB, através do artista plástico Cândido Portinari. Em 1947 nasce o
segundo filho do casal, Raul.
Torna-se
dirigente da União da Juventude Comunista. Vive, ao lado de Renée e os
dois filhos, um breve período de militância em liberdade. Meses depois
da chegada, o governo Dutra consegue arrancar da Justiça a decretação da
ilegalidade do partido, que havia eleito 14 deputados federais em 1946.
É a volta à rotina de perseguições e clandestinidade.
Apolônio,
Renée e as duas crianças passam a viver na clandestinidade, militando
entre Rio e São Paulo até 1953, quando ele parte para um curso na União
Soviética, que dura cerca de quatro anos. Em 1955, Renée o encontra em
Moscou e, em 1957, a família volta ao Brasil, vivendo na
semi-legalidade, situação que se estendeu até o golpe militar de 1964.
Na
década de 1960, participou da oposição popular ao regime militar. Logo
após o golpe de 31 de março de 1964, Apolônio passa a viver em profunda
clandestinidade no Estado do Rio de Janeiro, longe da família. Em
consequência das divergências com o Comitê Central do Partido Comunista,
do qual era membro, Apolônio e a Corrente Revolucionária do Estado do
Rio deixam o PCB, em 1967.
Alguns episódios
aguçam a reflexão crítica que levaria Apolônio a romper com o PCB. Em
54, o suicídio de Vargas expõe o que ele chamou de “completo divórcio
entre a orientação política seguida pelo PC e a população (...);
enquanto esta protestava maciçamente nas ruas, documentos ainda quentes
dos comunistas chamavam à derrubada do governo Vargas pelas armas”.
Dois
anos depois, ele e Renée participavam de um curso de formação política
em Moscou, na mesma época em que militantes e dirigentes do PC soviético
se lançavam à preparação do 20º Congresso do Partido, em que foram
reconhecidos, oficialmente, os crimes e atrocidades cometidos sob a
direção de Stalin.
“Por coincidência – conta
Apolônio – estávamos também os dois iniciando nossa quebra particular do
culto à personalidade. O que era relativamente fácil para Renée e seu
espírito aberto, de agudo senso crítico e, não raro, cáustico. (...)
Renée me ajudaria, em meu lento retorno ao papel de militante
consciente, a ver os ostensivos problemas de uma sociedade que, quarenta
anos atrás, se libertara dos grilhões do capitalismo: marcas de atraso;
largos desníveis sociais; as duras condições de vida dos trabalhadores,
no campo e na cidade; os privilégios dos altos e médios escalões
partidários; o monopartidarismo; a diluição do papel dos soviets, ou
conselhos populares, sob o peso da fusão do Partido-Estado.”
No
início dos anos sessenta, ainda no PCB, o crescimento dos movimentos
populares no Brasil permite a Apolônio se reaproximar de sua fonte vital
de energia: o contato direto com trabalhadores e estudantes. Ele, Renée
e alguns companheiros de partido, como Mário Alves e Jacob Gorender,
lançam-se a um intenso trabalho de educação política no Rio de Janeiro,
que se espalha por bairros populares, sindicatos e universidades. Disse
ele:
“Gosto muito do que faço. Empolgo-me com
as perspectivas novas que a militância volta a me oferecer. Pouco a
pouco, vou voltando a ser o militante de antigamente, até que o golpe
militar de 64 vem romper esse empenho.”
É neste
contexto que, juntamente com Mário Alves, Jacob Gorender e outros
dissidentes, Apolônio funda o PCBR (Partido Comunista Brasileiro
Revolucionário).
As teses que fundamentavam o
enfrentamento armado da ditadura militar, a partir de pequenos núcleos
guerrilheiros que, a exemplo da revolução cubana, conquistariam a adesão
popular e marchariam irresistivelmente rumo à vitória, tinham fortes
razões para propagarem-se como rastilho de pólvora junto aos militantes
brasileiros, segundo Apolônio: “a frustração pela derrota de 1964,
sobretudo por seu caráter humilhante, sem luta; o niilismo político,
dadas as diversas orientações terem levado a sucessivas derrotas; o
romantismo revolucionário; afora as dificuldades da ação política na
clandestinidade, com os movimentos sociais de todo paralisados”.
No
dia 13 de janeiro de 1970, o caminho da luta armada chega ao fim para
Apolônio. Violando os princípios básicos de segurança que aprendera ao
longo de duas guerras e algumas décadas de militância clandestina, ele
vai até a casa de um companheiro que deixara de comparecer a sucessivos
locais de encontro. É capturado por agentes da repressão política que lá
o aguardavam e levado ao quartel da Polícia do Exército, no Rio de
Janeiro. Mário Alves também foi preso no Rio e Jacob Gorender, em São
Paulo. Todos são violentamente torturados e Mário Alves, assassinado. Em
fevereiro, os filhos Raul e René-Louis também são presos.
Sobre aquela época, Apolônio contou:
“Lembro
em particular de exemplos de companheiros presos no tempo da
Resistência Francesa. E o lema que nos guiava: ‘se tiver de morrer, levo
alguns inimigos comigo’. Estou sentado atrás do motorista e uma idéia
me acode: talvez agarrando-o pelas costas e desgovernando o carro, possa
fazê-lo arrebentar-se num paredão. (...) Quando o momento me parece
favorável, atiro-me sobre ele; e torço com todas as forças a direção do
veículo, que se choca com o paredão ao lado. O impacto, no entanto, não é
tão violento quanto esperava. Pouco a pouco, volto a mim mesmo. Estava
desmaiado pelas coronhadas.
“(...) Logo começa o
interrogatório. Respondo com calma e firmeza. Quando aludo à justeza de
nosso protesto armado contra a ditadura, um dos oficiais dá-me uma
bofetada por sobre o capuz. Além de insulto, trata-se de extrema
covardia. Desvencilho-me do capuz e jogo-me contra eles. Por pouco
tempo. Segundos depois, já por terra, volto pouco a pouco a mim. Agora
estou algemado nos pulsos e tornozelos. Na verdade, tento apenas
portar-me como aprendi na militância. Como não tenho armas, reajo com
punhos aos insultos. “Não sei quantos dias passei sob tortura. Sei que
foi implacável, feita de ódio e sadismo. Só deixei de ser torturado
quando o coração ficou por um fio, e eu literalmente apaguei.”
Meses
depois, localizado por Renée no quartel da PE, recebeu a notícia de que
não ficaria preso por muito tempo. No dia 17 de junho, partiu para a
Argélia, junto com outros 39 companheiros, trocados pelo embaixador da
Alemanha, sequestrado por um comando guerrilheiro. Renée junta-se a ele
tempos depois, quando o filho Raul e sua mulher Isabel deixaram a prisão
no Brasil. Seguiram todos para a França. Apolônio ainda fazia planos de
voltar clandestinamente, para se reintegrar à luta, mas foi dissuadido
pela companheira.
No fim dos anos 1970, com a
retomada das lutas sociais e a conquista da anistia, Apolônio e Renée
voltam ao Brasil. Neste retorno, Apolônio aproximou-se dos grupos que
então trabalhavam para criar o Partido dos Trabalhadores, tornando-se um
de seus fundadores. Sobre a criação do PT, Em entrevista ao jornal A
Tribuna, em 2005, ele disse:
“ Nascemos na
condição de produto direto, e ardorosamente desejado, de trabalhadores,
de intelectuais. De figuras que desejavam uma organização profundamente
ampla e também profundamente democrática. Acho que isso marca muito o PT
na sua origem como o mais democrático dos partidos políticos até então
existentes no País.”
É de Apolônio a ficha de
filiação número um do Partido dos Trabalhadores, no memorável dia 10 de
fevereiro de 1980, no Colégio Sion, em São Paulo.
Apolônio
permaneceu na direção do novo partido até 1987, quando se afastou por
orientação médica. Apesar das limitações da saúde e da idade, Apolônio
prossegue um militante que não se furtou jamais aos debates e à
manifestação pública de suas posições de socialista convicto.
Entusiasta
do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), ao qual sempre
prestou apoio e junto ao qual esteve sempre, frente ao que não abriu mão
da crítica ou da esperança. Para ele, um novo mundo (socialista) era
sempre possível e poderá estar sempre ao alcance de nossas mãos, desde
que estejamos dispostos a nos organizar e a lutar por ele.
Nas
últimas páginas de sua autobiografia, o cidadão do mundo Apolônio de
Carvalho faz um balanço do tempo em que transcorre sua vida. Disse
Apolônio:
“Nele assistimos a duas guerras de
âmbito mundial que ceifaram dezenas de milhões de vidas com os meios
tradicionais cada vez mais poderosos mas, sobretudo no caso da segunda,
de forma organizada e racionalizada, capaz de eliminar parte de todo um
povo pelo trabalho forçado até a exaustão e as câmaras de gás. Vimos
centenas de milhares de seres humanos desaparecerem em cinzas, nas
frações de segundo de um bombardeio atômico. Milhões de homens – o mais
precioso dos capitais – apodrecerem em prisões e campos de trabalho.
“(...)
Nesses combates, vencemos às vezes – o mais das vezes fomos derrotados.
Mas todos os avanços civilizatórios arrancados ao capitalismo nesse
século, no terreno das liberdades democráticas e no campo das condições
de vida da população, foram resultados das lutas do movimento social,
com a presença ou sob a direção dos que lutavam pelo socialismo.”
Muitas
destas falas e mais sobre a vida de Apolônio de Carvalho podem ser
vistos no documentário Vale a Pena Sonhar, que exibiremos amanhã, às
19h, no Teatro Dante Barone.
Nas últimas
linhas, Apolônio permite-se um tom mais pessoal: “Com Renée, o amor
profundo e privilegiado de toda uma vida. E uma floração de amizades
sinceras, sem as quais viver não tem sentido. E uma constante e saborosa
vontade de viver. Alimentada naturalmente e sem artifícios. Pois,
felizmente, de viver a vida não me fartou.”
Nenhum comentário:
Postar um comentário